Wednesday, May 31, 2006





céu de lagoa seca, 2003

Do templo a vaga lembrança de nenhum ornato,
bem próximo das estrelas e sem acesso aos carros,
era onde o verbo não tinha gravata, mas nossos passos.
Arena em que a beleza despencou de seu cavalo

e a verdade transformou a busca em palco.
A ordem do universo limpou seus átomos.
Nenhuma aurora derramou este antes e depois, este marco.
As perguntas se moveram de lugar e se equilibraram:

uma assinatura se arriscou, cuja forma eu salvo.
É ainda esboço e este esboço é meu retrato

Tuesday, May 23, 2006



geração zero

não se trata de preferir teclas ao lápis.
Ninguém usa mais sangue, história ou carne.
Pensar? Pensam no em-si-mesmo, mas em apud.
Um remake do arte-pela-arte.

Não se trata de ser gaveta ou site.
É o andaime como lugar sobre a paisagem,
o making of como filme, a maldição como charme.
A margem para centro: Deus só negro, mulher e com aids.

É o fim do autor, o pós-nome, metalinguagem,
incapaz de ouvir ou de entender black-outs

Sunday, May 21, 2006


Descendo o pavilhão do chá, 2004

ferida de morte é toda dor de macho.
O que for música eletrocuta a vida do ex-proprietário
de outra vida. Espatifado vidro é o ar que entalo.
Todos os dias numa cor, falha sem prazo.
Escuridão, elevador de vazios, o álcool
não é para as feridas, mas pra meus passos.
Este é o trabalho da noite e o meu trabalho.
O corpo contra outro coube um quarto.
O sol é uma ordem, o infinito está com parkinson.
Alma em cubos de gelo e fungo. Amanhãs mofados.

Thursday, May 18, 2006



bar amarelinho, campina grande


onde não se aceita cartão, nem tem whisky.
Agüento o amigo (por dentro qualquer um é triste).
Sem importância que a cerveja esfrie,
éramos dois kafkas de R$ 1,99, de butique.
Nenhuma mulher nos esperava, nenhuma mulher livre
àquela hora em que contávamos cicatrizes.
A noite era de uma miséria simples.
Falávamos de eliot, nossa inútil estirpe,
num lugar onde este nome era invisível.
“Ninguém aqui lê eliot”, entre risos disse,
“mas, eles se vingam da gente sendo felizes”.

Wednesday, May 10, 2006



o sertão segundo ronaldo correia de brito

plano em que tropeça e anda o mito,
a paisagem em movimento e por fazer. O símbolo
depois das cercas, ferros de marcar, e livros.
Dos caminhos gerais, do preto e branco, o vírus

que altera o lugar, no lugar mesmo, palco infinito.
Um sertão segundo os seus próprios riscos,
onde tudo é sem cortes, edição, sem ser preciso
reiventar o cenário, a locação ou o ritmo.

O lugar-comum riscado, ao invés disso,
a tensão como lugar, no seu mais dentro e limpo.

Sunday, May 07, 2006



michel melamed

um poeta, um palco, um fio
de alta tensão com a platéia. Qualquer ruído
causa um choque no autor, que ali é signo
em colisão. Uma metáfora deste tipo

faz do público coro e do corpo do ator imprevisto.
O drama por um riso, por um risco,
feed-back desencapado ao vivo.
Lírica elétrica de cálculo e improviso.

Vômito de ismos, prega a peça e regurgita o tiro:
obra aberta de um eco apocalíptico.

Wednesday, May 03, 2006



teologia de fast-food

remoto, mantenho a insônia sob controle. Um número
de strip-tease, um spielberg, um anúncio.
Um bispo, o povo ao fundo, a bíblia em punho.
A fala, o gesto, a fé, o estar-no-mundo

impresso em série, nos discípulos, modelo único:
franquia de felicidade, fala que eu te escuto.
Não fecha para almoço, aberta nos três turnos
a prostitutas, traficantes, ladrões, gays, espíritas, tudo.

Onde os invisíveis salvam seu futuro.
Modus mcdonald's, luz no fim do túnel.

Monday, May 01, 2006



congresso da une, 2001

No shopping do sonho,
o olhar de 'che' era a regra:

em botons, faixas, tatuagens,
palavras de ordem. Ninguém enxerga

que o olhar de 'che'
era uma ferida aberta, uma fogueira
em preto e branco, pontos rompidos.
O sonho sangrava.

Onde houver dois ou mais reunidos
o mal governa.