Friday, June 30, 2006



dna

o que sou
é em movimento


sempre quis ser outros erros,
nunca o mesmo.
Com quantas fases
se chega a um espelho?

harakiri,
atari.

Coração,
carro bomba e próprio alvo,
caixa forte a carregar
dívidas.

Sou uma
pergunta sobre quatro patas
que segue em frente.




PALAVRA CRÍTICA


Texto do poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho analisando a produção poética da Coleção Tamarindo, da qual saiu meu livro "antimercadoria". O ensaio está publicado na revista Correio das Artes desta semana


" (...) 2. O jovem Astier Basílio (tão somente 27 anos!), comparece com Antimercadoria, título tomado de empréstimo ao poeta pernambucano Alberto da Cunha Melo. Fugindo, desta feita, das rígidas matrizes da métrica, salta no abismo mais largo do verso livre, se é que existe tal fenômeno. Compartilho da opinião de T. S. Eliot: para o poeta que se dá ao respeito, não existe verso livre! E o jovem cantador, pois nele há a estranha e sugestiva mistura de poeta erudito e popular, deve ter consciência desta verdade estética. Tanto é que, artesão da metria e da escanção (observem-se as décimas e os sonetos de livros anteriores), arrisca-se, embora o faça com ostensiva segurança, na criação de cadências e ritmias menos ortodoxas. Eis aqui um autêntico verse-make, um legítimo fabbro, como diriam Ezra Pound ou Mário Faustino, senhor de escaladas metafóricas radicais e voz sequiosa dos mais variados atentados poéticos. Creio, não obstante, que o húmus telúrico da tradição oral ainda percorre, qual um imprinting, isto é, uma marca, uma raiz de fundo antropológico e cultural, os riachos subterrâneos desta poética, aparentemente vestida com as lantejoulas e pompas de signos massivos e virtuais. É de se retomar, neste passo, a idéia frutífera de que novidade nem sempre é originalidade, conforme leciona Stefan Morawski, em seus Fundamentos da estética. Poemas como “Cordial folhetim do encontro entre demo e o diabo na cabeça de Glauber e no corpo de Othon”, “Curta para Inácio e Romano”, “Portal dos quatro ventos”, “Rapsódia ancestral do primeiro mistério”, “Galope cósmico” e “Romanceiro da Borborema” comprovam que não incorro em erro. O melhor, no entanto, da poesia de Astier Basílio, está na autópsia semântica dos paradoxos sinestésicos, no estilete do olhar inclinado para as rupturas expressivas e no esmeril da linguagem a captar essências inusitadas como estas: “(...) A beleza é um desfile cruel”; “(...) o mundo/ sem final / é um rembrandt feito de incêndio”; “(...) Viver tem mais abismos / que planilhas” e “(...) O que se perde torna-se perfeito”. Só não entendo porque na seção “Faixa Bônus (auto-entrevista) - peça mais de ficção que de referência – o autor renegue Funerais da fala, prêmio Novos Autores Paraibanos, versão 1999/2000, afirmando que sua “estréia estética” se dá com Searas do sol, livrinho de 2001. Tal atitude desautoriza a competência da comissão julgadora, os poetas José Antonio Assunção, Antonio Morais de Carvalho e Lúcio Lins, que lhe conferiram o primeiro lugar, fazendo também tábula rasa das palavras do prefaciador que enaltece o vigor visionário de sua poesia, embora lhe condene, en passant, a excessiva volúpia de certas imagens (...)"

Thursday, June 29, 2006



Wood Allen – Match Point

perdeu a paisagem, mais íntima
e contínua, o vício do traço. A tinta
de fazer auto-retrato agora picha.
Wood Allen desce do divã e se livra

de si. Sobre sua rubrica,
uma outra mão rasura, a risca.
Antes do ponto final, (Freud explica),
é possível mudar de lugar na fotografia

Sunday, June 25, 2006



lirinha

o teu fogo encantado
é sem tomada,
teus sertões,
em banda larga.

Nordeste em digital
sem medo de não ser em
preto e branco,
mamulengo sem fio,

caboclo-clown,
pinto do monteiro, pink floyd,
cantador de mil canais,
cavalo do contrário:

o palco em ligação direta.

Wednesday, June 21, 2006






o segredo de brokeback


o amor é um western,
desigual duelo.
Os dias na esperança de um só dia,
que sempre recomeça.


Casablanca pela culatra,
Brokeback é a Paris perpétua
o amanhecer sem testemunhas,
nem cerca elétrica,

porque não há vistos,
para parte alguma desta guerra.

Saturday, June 10, 2006




adriana calcanhotto

a voz: um mar à noite
e ao contrário;
o violão pisa em cacos de vidro
como um descalço.

Canto tinto e em compotas.
Suave e trágico.
Sotaque cujo sabor,
meio amargo, sabe a um frasco

quebrado e por dentro,
favo de ácidos.

Wednesday, June 07, 2006



retrato da musa enquanto espelho

mais um dia no final do espelho. A mim de costas,
ela retira a maquiagem. Ao alcance de um sim, próxima
ao sonho. Ali, refaz seu rosto para ser ela própria.
Uma imagem antes, um palco em branco. Uma incógnita

diária e aos poucos. O resumo das mulheres todas.
Palimpsesto ao vivo, Penélope ao avesso. Cópia
de um erro que eu não sei repetir. A rosa em sua rosa.
Mesmo o chão meu ponto, quando encontra

seu último é lá, sem aura e sendo deusa, que ela renova
o infinito e, por causa disso, mais um dia se suporta.


08/VI/2006

(dedicado a danielle, no dia de seus anos)